HISTÓRIA

UM HOMEM, UM LIVRO A DESCOBRIR, O JUSTO DE BORDÉUS

 

Aristides de Sousa Mendes foi o cônsul português que, em 1940 em Bordéus, escolheu desobedecer ao seu governo para salvar milhares de pessoas, entregando-lhes vistos. 

Portugal era neutro na segunda guerra mundial, mas o seu ditador Salazar proibía os seus diplomatas de entregar qualquer visto, a certas categorias de requerentes de asilo, os mais vulneráveis no contexto da época : os apátridas, os judeus, os Russos, ... : os indesejáveis fugindo os nazistas. Em maio/junho de 1940, Bordéus foi invadida por centenas de milhares de refugiados. O cônsul, informado da situação, decidiu entregar vistos. 

« Estima-se que mais de 30 000 – 10 000 entre estes eram judeus - foram salvas. Yehuda Bauer, um especialista refugiados judeus durante a guerre, escreverá "foi a maior ação de salvamento conduzida por uma única pessoa durante o holocausto". 
Ele foi obrigado a parar a entrega de vistos e a 22 de junho de 1940 (dia da capitulação da França), dois funcionários foram enviadas para conduzi-lo até Lisboa, a fim de garantir a sua segurança. 

O Cônsul foi obrigado a ir embora para Baiona, onde pude ver uma multidão de pessoas perto do consulado português. O "cenário bordalês" instala-se mais uma vez : Aristides de Sousa Mendes, atropelando o vice-cônsul desta cidade, voltou a assinar quantidades de vistos. Mas o incorrigível diplomata não ficará por aqui, ao chegar ao posto de fronteira de Hendaye, encontrou refugiados a quem tinha entregado vistos em Bordéus ; e que não puderam passar por causa da fronteira que estava fechada. Numa albergue não muito longe, reclamou papel e "fabricou" novos vistos onde pedia "em nomo do governo português, às autoridades espanhois de deixar o passador atravessar livremente o território", palavras seguidas pela sua assinatura. A seguir, levou toda a gente com ele em direção a um posto de fronteira, isolado e miraculosamento sem telefone. O polícia espanhol, impressionado pela personagem e ignorando as recentes instruções de Madrid, deixou passar o grupo composto por centenas de pessoas. O último milagre do Cônsul português tinha operado !" (Ilan Braun, extrato de uma página realizada pela Associação Mémoire-Yzkor-Morbihan, julho de 2002). 

Revogado pela sua administração; ele morre na miséria em 1954. A 21 de fevereiro de 1961, uma árvore foi plantada em sua honra no Jardim dos Justos em Jerusalem. Ele só foi reabilitado pelo Estado português em 1987. Em 1994, Mário Soares, presidente da República portuguesa, revelou em Bordéus o busto do seu compatriota. 

« Sob a caneta do jornalista, aparece em todo o seu desespero o período perturbado do fim da "guerra estranha" e dos inícios da colaboração de Estado vista de Bordéus. Os refugiados de "nationalidade indefinida" afluam por milhares. Perseguidos, eles não se fazem illusões quanto aos seus destinos se encontrassem os nazis ; todos tem esperança em fugir da França. Como ? Com que visto ? Não é o problema de Portugal que escolheu a sua neutralidade. As ordens dadas aos seus diplomatas são irrefutáveis : não se entregue vistos aos estrangeiros de nationalidade indefinida e aos judéus expulsos do seu país. Aristides de Souza Mendes, nascido de uma família rica, grande e muito católica não tinha por hábito de desobedecer. Mas "o nosso pai disse-nos que tinha ouvido uma voz, a da sua consciência ou a de Deus, que lhe ditava a conduta a seguir", testemunhará mais tarde um dos seus filhos. » (extracto de um artigo de La République des Lettres, 1998). 

« Quando, em setembro de 1938, instalou-se em Bordéus, quai Louis-XVIII, Salazar tornou-se ditador de Portugal. Após a derrota de maio-junho de 1940, milhares de pessoas que vieram de Paris, Riga, Varsovie, Anvers, fazem o caminho para o exôdo. "Todos fugiam dos bárbaros cuja sombra jà se estendia pela Europa toda." Para salvar vidas, precisavam de uma única assinatura nos seus passaportes. Um homem, ARistides de Souza Mendes, monarquista por paixão e pai de 14 crianças, vai fazê-lo apesar das diretivas de Salazar. Ele dirá : "Darei vistos a toda gente, já não há nacionalistas, raças, religões." "Judéus, católicos, protestantes ? Assina-se ! Apátridas ? Assina-se ! Russo ? Assina-se ! Alemão ? Assina-se ! "A 8 de julho de 1940, Aristides de Souza Mendes volta para seu país, onde passa em Conselho de Disciplina. Privado de trabalho aos 55 anos, falece a 3 de abril de 1954. Os Israelitas lembraram-se do que ele tinha feito e plantaram uma árvore no Jardim dos Justos em Jerusalem  a 21 de fevereiro de 1961. Ele será reabilitado pelo seu governo sómente a 24 de maio de 1987 e foram necessários mais de 50 anos para que Bordéus se lembra.» (extracto de um artigo de Pierre Lebedel, La Croix, a 28 de janeiro de 1999)

UM LIVRO A LER

Aristides de Sousa Mendes, O Justo de Bordéus

por José-Alain Fralon